Acervo Editorial
Arison Jardim
Jornalista socioambiental, fotógrafo e documentarista com forte atuação na Amazônia, especialmente no Acre. Possui ampla experiência na cobertura de temas ligados a direitos humanos, povos indígenas, populações tradicionais (seringueiros e ribeirinhos), meio ambiente e infraestrutura pública. Especialista em traduzir realidades complexas da fronteira amazônica por meio de textos aprofundados, ensaios fotográficos e produções audiovisuais.
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João Donato: 80 anos de música simples e sorridente
28/02/2026
Simpatia e leveza definem João Donato, que há 69 anos morando fora do Acre nunca teve dificuldade de contagiar a música que faz...





Simpatia e leveza definem João Donato, que há 69 anos morando fora do Acre nunca teve dificuldade de contagiar a música que faz com o espírito de sua terra. “Ela é simples, sofisticada e um pouquinho diferente”, diz o artista sobre suas canções, notas e melodias, embaixo de uma mangueira, em frente à Usina de Arte de Rio Branco, horas antes de iniciar as comemorações de seus 80 anos de vida com um show no Teatro Plácido de Castro, na última quinta-feira, 24 de outubro.
Minha música vem do Acre e volta pra ‘qui’”
Durante um fim de semana de pura dinâmica acreana, Donato vai mostrando como empresta essa energia à sua arte, fazer fino que ele realiza como ninguém. Aos sete anos de idade, já demonstrava jeito para “a coisa”. Apaixonado, compôs uma valsa pra Nini, sua primeira namorada. Seria mais uma canção de um garoto com o coração apertado, mas, com o tempo, superou as expectativas e até hoje é tocada em shows. Na Rússia, na sala Tchaikovsky, fez o público aplaudir intensamente, relata o ainda garoto sorridente, João.
Com essa irreverência, Donato continua a conversa de sua trajetória pelo mundo da música. Uma pausa para um café e segue, a história agora é da música “Índio Perdido”, que depois de ganhar letra de Gilberto Gil viraria “Lugar Comum”. Mais uma prova de que a Amazônia não deixa a sua gente. João revela que a música não é sua: “eu ouvi, quando ainda era criança, alguém assoviá-la dentro de um barco que passava no Rio Acre, ao cair da tarde”.
Já em outro ponto do estado, na Aldeia Nova Esperança, do povo yawanawá, o menino revela um pouco mais sobre seu histórico amazônido. “Nasci em Rio Branco, morei no Seringal Amapá; eu me acostumei a ver esse negócio de rio, de água amarela barrenta, das frutas, das próprias árvores”, diz com um sorriso no rosto ao contemplar a natureza.
Lembranças essas que, com certeza, acompanham o senhor João, que já fez música para a namorada, para as filhas, na beira de rios e até dormindo. Durante o show no Teatrão, antes da música “Amazonas”, ele citou a fonte de sua inspiração para a melodia: “Fiz essa música em um sonho”, diz, rindo para o público.
Essa composição em especial entrega mais sobre a relação do músico João Donato com sua terra natal que qualquer conversa. Remonta à lembrança de seus rios, indo de correnteza suaves até águas mais agitadas. Traz sons que lembram árvores balançando ao vento, momentos antes de mais uma chuva tropical, até seu fim, quando o céu se abre revelando uma vida verde e, como diz a letra de Lysias Ênio (irmão e parceiro de Donato), que “livre vai correndo o Amazonas seguindo seu caminho para o mar”.
“É o clima do Acre que vive na minha vida”
A universalidade de um músico latino
Em uma composição de Joyce Moreno e Jorge Helder, o menino parece tomar vida a partir da letra: “Ele é o barato e ele tem o poder da criação”. Donato é muito reconhecido pela habilidade de inventar, de andar pelos diversos mundos da música. Começou com uma sanfona, caminhou pelo jazz, caiu nos braços dos ritmos caribenhos, conheceu os sons da umbanda e candomblé e vive nos braços do samba.
“No início minha música era incompreendida, eu lutava pra tocar nos lugares”
O som “simples, sofisticado e um pouquinho diferente” desse mestre da música teve um encontro único durante sua visita aos yawanawá, na Terra Indígena do Rio Gregório, no município de Tarauacá. Como um menino curioso, ao ouvir, à distância, os índios yawanawá em kupixawa (palhoça redonda), buscou o som até encontrá-lo.
Enquanto o líder Shaneihu Yawanawá, acompanhado de crianças, cantava o “Kanarô” (que relata parte da história de seu povo), Donato, com uma espécie de piano móvel, dedilhava as teclas, reproduzindo as notas que ouvia. No meio da floresta, quis apresentar um pouco de sua arte, “tenho umas músicas que também podia mostrar”.
O senhor com sorriso de criança tocou “Emoriô”, acompanhado de Shaneihu no violão e um coro de uma nova geração de acreanos. “Achei lindas as crianças, têm rostos tão bonitos! As vozes são todas bonitas, os cantos são muito bonitos e eu vou levando muita influência por essa troca”, diz João, encantado com o encontro.
João não cansa de gravar discos e músicas com parceiros. Entre mais de 80 LPs e CDs, tem praticamente um álbum por ano de vida. E continua. Este ano já foi indicado ao Prêmio da Música Brasileira, na categoria Melhor Canção, com “Eu não sei o seu nome inteiro”, de sua parceria com João Bosco e Francisco Bosco, incluída no CD “40 anos depois”, de João Bosco.
Ao falar sobre prêmio Grammy Latino na categoria Álbum de Jazz Latino, que recebeu em 2010 pelo CD “Sambolero”, agradece com humildade o reconhecimento e explica o porquê: “No início minha música era incompreendida, eu lutava pra me apresentar nos lugares. Tinha que esperar até 4, 5 horas da madrugada pra tocar para o pessoal da limpeza, aí entrava e tocava com meus colegas que gostavam de mim.”
Hoje, iniciando os festejos dos seus 80 anos de vida, que, na verdade serão completados em 2014, já com a agenda repleta de shows pelo mundo todo, João Donato pode dizer com orgulho sobre sua música: “Eu não mudei de ideia, não mudei de estilo”. O menino do Acre mantém seu jeito de fazer uma música simples e sorridente.
Produção de Alexandre Nunes
Publicado originalmente em Agência de Notícias do Acre
Cidade do Povo reorganiza a ocupação urbana de Rio Branco
01/02/2015
A família dos irmãos Jair e Jerry Souza, hoje moradores do bairro Taquari, em Rio Branco, é uma dessas que atravessou a floresta, onde hoje é o município de Capixaba, para terras bolivianas. “Ainda cheguei a cortar seringa com meu pai, lá na Bolívia. Há 16 anos viemos para a capital”, diz Jair. Exemplos da […]
A família dos irmãos Jair e Jerry Souza, hoje moradores do bairro Taquari, em Rio Branco, é uma dessas que atravessou a floresta, onde hoje é o município de Capixaba, para terras bolivianas. “Ainda cheguei a cortar seringa com meu pai, lá na Bolívia. Há 16 anos viemos para a capital”, diz Jair. Exemplos da história da ocupação urbana do Acre, os irmãos, a partir de domingo, inauguram um novo ciclo de suas vidas e do estado, seguem para a Cidade, planejada, do Povo, empreendimento idealizado pelo governo federal e governo do Acre, por meio do programa “Minha Casa, Minha Vida”.
As primeiras ocupações urbanas do Acre são consequências da expansão da borracha, no início do século XIX. Às margens dos rios estavam os seringais, que um dia virariam vilas e depois cidades, como é o caso do Seringal Empresa, que passou a Vila da Volta da Empresa, em seguida para a cidade Penápolis (homenagem ao Presidente da República, Afonso Pena), e transformando-se definitivamente em Rio Branco, a capital do estado.
A crise econômica dos seringais e da borracha representou uma fuga para a nova cidade, começando, a partir de 1970, a ocupação desordenada de 150 novos bairros irregulares na capital. A população urbana de Rio Branco, que representava em 1970 apenas 41,1% do município passou para 74,8% em 1980. Outro aspecto do êxodo rural acreano, é a fuga de famílias para a Bolívia, onde continuaram trabalhando na extração da seringa.
A nova fase da ordenação urbana do estado entregará 10.518 casas e beneficiará mais de 60 mil pessoas com moradia própria. Em maio deste ano, 392 famílias receberam o benefício e no domingo, 29 de junho, serão mais 500, incluindo Jair, sua esposa, sua filha e o irmão Jerry. “É uma ‘bença’ essa casa, nós nem estávamos esperando. Meu irmão tinha que viver aqui nessa casinha”, diz Jair, apontando para um cômodo de três por três metros, que tem ao fundo uma área alagadiça. “Quando o rio começa a encher, a gente já vê esse marzão d’água. Tem inseto, jacaré, e, rapaz, aparece cada sucuri enorme”, conclui. Jair é tutor legal de seu irmão, pois esse sofre problemas psicológicos, e pouco fala com alguém que não seja da família.
A ocupação dos barrancos
Na beira de um igarapé, no Bairro Ayrton Senna, vive Antonia Moreira e seus seis filhos. A família sofre com o medo constante de o chão ceder mais e a casa ter o mesmo fim que a árvore de jenipapo, apontado por Antonia, no fundo, caído na enchente desse ano. “Outro dia mesmo uma menina caiu de cabeça aí nesse barranco, não aconteceu nada de mais grave, graças a Deus”, conta Antonia.
“Quando o vento balança a mangueira, a casa estremece toda. Morro de medo de ela cair e vou dormir na casa da minha avó”, afirma a mãe, segurando o filho mais novo, de sete meses. “Agora nós vamos ter uma vida digna. Já to com as caixas arrumadas ali dentro pra me mudar pra Cidade do Povo”, diz sorridente, Antonia, já pensando no futuro dos meninos: “A escola dos meninos vai ser muito mais perto, vai ser tudo mais fácil. Eu digo pra eles, tem que estudar pra ser alguém na vida”.
“Tenho medo de estar dormindo e a casa cair”, diz a mãe do João Pedro Jr, Dayane Souza, moradora do Bairro Preventório. Mãe e filho vivem em uma casa, à beira de um barranco que margeia o Rio Acre. A pequena casa, que acomoda uma cama, fogão, geladeira e uma televisão, possui um quarto que já cedeu quase um metro. “Se alguém passa aqui e toca na casa, ela treme”, diz Dayane. Durante as cheias anuais do Rio, acelera-se o processo erosivo. Com a grande velocidade da correnteza, crateras se abrem nas margens.
A casa de Dayane, em poucos anos, ou meses, poderia tombar de vez. Mas além da estrutura precária, há ainda a dificuldade do banheiro ser fora da casa, ainda mais para baixo. “Eu, grávida, já caí no banheiro ali atrás, meu filho ficou com a perna presa uma vez de manhã”, relata. Essa realidade, e de outras 3300 famílias de área de risco (primeiras moradoras da Cidade do Povo), já começa a mudar. “Agora pra gente vai ser muito melhor, meu novo filho já vai nascer numa casa boa. Tanto tempo morando aqui, nunca imaginei que fosse existir uma ‘cidade’ assim”, diz esperançosa, Dayane.
Seringal Macapá: o dia a dia de uma floresta habitada
18/01/2015
Para adentrar uma comunidade da Floresta Amazônica pode-se usar barco, camionete, animais ou, simplesmente, os pés. Então o acelerado passo de seringueiro tem absoluta pertinência, pois o desafio é percorrer quatro horas para chegar em casa, em uma das primeiras colocações do Seringal Macapá. As passadas ligeiras, precisas e cheias de força superam os varadouros entre as matas, repletos de […]





















Para adentrar uma comunidade da Floresta Amazônica pode-se usar barco, camionete, animais ou, simplesmente, os pés. Então o acelerado passo de seringueiro tem absoluta pertinência, pois o desafio é percorrer quatro horas para chegar em casa, em uma das primeiras colocações do Seringal Macapá. As passadas ligeiras, precisas e cheias de força superam os varadouros entre as matas, repletos de lama e espinhos.
Uma hora de caminhada no passo do seringueiro equivale, em média, a 6 km
(Fonte: Carlos Estevão Ferreira Castelo)
O dia passa e a vitória chega, mas a luta continua, pois a floresta não dá o abrigo e o alimento assim tão fácil. Cada passo é a busca de uma vida próspera, permeada de trabalho e conhecimento de realidades a quilômetros e quilômetros distantes das cidades. São mais de 200 famílias seguindo a luta histórica de viver em um ambiente que “considera o homem um intruso”, como definiu Euclides da Cunha em seu “Amazônia: terra sem história”.
Vana Ribeiro pode se considerar experiente nessa batalha, apesar de seus 21 anos. Nasceu, criou-se, casou e continua a viver em um seringal. Sabe muito bem que para a cidade não quer voltar,“meu negócio é no mato”, diz com o sorriso perene no rosto, enquanto prepara uma galinha caipira para o jantar.
A moça, estudante do ensino médio, nasceu no Seringal Espalha, vizinho da atual morada, ambos localizados no Riozinho do Rôla, no município de Rio Branco. Criada pelo avô, casou-se nova e seguiu com seu então marido para o Seringal Boa Vista, em Xapuri. De lá, Vana lembra com saudade das festividades de São João do Guarani, “esse ano não deu pra gente ir: como deve ter sido?”.
Há menos de dois anos Vana conheceu seu atual companheiro, Adriano dos Santos, de 28 anos. O casal experimentou viver na cidade, mas não se entusiasmou com a vida agitada e as luzes ofuscantes. Há três meses firmou residência na Colocação Bagé do Seringal Macapá e iniciou a realização dos seus sonhos.
“Aqui a Rádio Difusora é nossa distração e também nosso meio de comunicar”
Francineide, da Colocação Parada
É com um sol radiante que Adriano e Vana despertam. Milho para os porcos e galinhas, sal para as poucas cabeças de gado e, no quebra-jejum (desjejum), bodó e café. “Agora o verão começou”, diz o jovem agroextrativista no batente de sua janela, já se preparando para o trabalho no roçado.
“Quero plantar milho, assim posso alimentar os porcos e as galinhas. É uma criação que vale a pena, cada galinha pode ser vendida a 20 reais”, diz Adriano, projetando um futuro promissor. “Na minha terra cabem cem cabeças de gado. Ainda, no inverno consigo 400 latas de castanha, macaxeira e farinha. A farinha está a um preço bom. E no verão talvez consiga mil litros de latéx”, diz.
No meio da mata, a seis horas de caminhada da cidade, com seu pedaço de terra Adriano deixa uma lição de autonomia valiosa para os tempos de crise: “Trabalhar assim é melhor que trabalhar para os outros”.
Cansado do desemprego e da bagunça da cidade, Nonato das Chagas, 43, voltou para o Seringal Macapá semana passada. Carregando de cavalo sua mudança, levou sete horas percorrendo 20 quilômetros desde o Km 58 da Estrada Transacreana até a colocação Santarém.
Nonato não é um iniciante nesse meio, pois cresceu e viveu sempre em colocações distantes, trabalhando com seringa, castanha e pecuária, além do roçado. Atualmente residindo na propriedade de um casal de amigos, cheio de simpatia e relaxando no chão da varanda após uma manhã de pescaria, ele justifica sua felicidade: “Aqui tenho onde morar, tranquilidade e vou poder explorar a castanha pra mim”.
Pés na lama, livros na mão
O cotidiano não estaria completo sem as idas e vindas à escola. Uma geração cresce na floresta, tendo acesso ao ensino fundamental e médio, com os obstáculos típicos da Amazônia.
Nos fins de semana o rapaz joga futebol com os amigos ou ajuda o pai na criação de gado e no roçado. No último domingo não teve “brincadeira de bola” (sic), pois foi ajudar a “puxar” (sic) alguns bois de um pasto para outro. “Esse cavalo tá muito cansado, trabalhou muito ontem à noite”, avalia, mostrando-se preocupado com o animal que o leva diariamente pra os estudos.Andar três horas a cavalo para estudar física é a missão dessa semana para os alunos do ensino médio. Erisvaldo de Souza, 18, está no 3º ano. Durante a semana acorda às cinco da manhã e parte com uma tarefa a cumprir: chegar ao seu destino antes do início da aula, às 8 horas.
Moradores se reunem para buscar a merenda escolar. São necessários dois bois e três horas de viagem até o início do seringal
“Eu incentivo muito meus sobrinhos a estudarem”, diz o professor Antônio de Souza, o Novinho. E ele sabe muito bem o quanto vale a pena lutar pelos estudos. Após 15 anos vivendo no Seringal Macapá, foi pra “rua” (a cidade, no caso, Rio Branco) iniciar os estudos. Hoje com 34 anos, dois após concluir o ensino médio, realizou o sonho de voltar para suas origens e dar aula para 11 alunos do ensino fundamental.
As crianças começam a estudar aos cinco anos, se aguentarem andar no varadouro. O primeiro passo é se livrar da lama, se lavar pra começar a estudar.
O entusiasmo de Novinho tem uma razão legítima: “Quando estes alunos chegarem mais à frente, em Rio Branco, vão ter o que contar da sua história, da sua origem, ter orgulho de onde vieram: ‘Eu vim do seringal!”.
Texto originalmente publicado em Agência de Notícias do Acre
Brasil e Haiti, um mundo de histórias
18/01/2015
Explodir pedras, perfurar rochas, construtores. Varrer ruas, limpar praias brasileiras, garis. Depenar galinhas, subir caixotes. Por que não vender bijuterias, artesanato? Esses são os destinos de professores, técnicos de enfermagem, mecânicos, contadores, pedagogos haitianos, senegaleses, dominicanos quando encontram o solo brasileiro. Pessoas qualificadas e com um sonho de reerguer suas vidas com o trabalho. Muito […]
Explodir pedras, perfurar rochas, construtores. Varrer ruas, limpar praias brasileiras, garis. Depenar galinhas, subir caixotes. Por que não vender bijuterias, artesanato? Esses são os destinos de professores, técnicos de enfermagem, mecânicos, contadores, pedagogos haitianos, senegaleses, dominicanos quando encontram o solo brasileiro.
Pessoas qualificadas e com um sonho de reerguer suas vidas com o trabalho. Muito trabalho para reconstruir o que nem mesmo terremotos ou crises econômicas e sociais podem fazer ruir: sua dignidade.
O destino desses sonhadores é um Brasil que parece aquecer cada vez mais sua economia, abrindo postos de trabalhos diversificados, muito bem anunciados entre os viajantes que aportam em Brasileia, Acre, que tem funcionado como porta de entrada para o país. Porta por onde já passaram mais de seis mil imigrantes.
Paramos e ouvimos um rapaz de fala mansa, bem vestido, roupa quase passada a ferro. Croinchy Zache, 32, haitiano, nascido em Jaemel, pergunta em um inglês fluente: “Você sabe onde posso conseguir bons livros de português?”.Desses tantos, alguns fazem questão de contar suas histórias. Correm, amotoam-se e desandam a falar, na língua que mais for compreensível – crioulo, francês, espanhol, inglês, wolof -, o importante é tentar fazer os outros entenderem cada passo de suas viagens, de seus diplomas, da vontade de encontrar um bom trabalho.
Seu sonho é trabalhar dando aulas ou como tradutor no Brasil. Estudou inglês na República Dominicana e, com o diploma na mão, diz: “No Haiti não é fácil arrumar um bom trabalho, mesmo que você tenha graduação”. Ele aponta para mais dois amigos – um contador e outro turismólogo -, todos com o diploma à mostra. E sentencia: “Estou aqui para mudar de vida”.
Trissaint Ezechiel segue sempre sorridente, mesmo limpando a bagunça de seus colegas (Foto: Arison Jardim/Secom)
Órfãos da pátria haitiana
Em meio à confusão de braços e bocas na espera de uma marmita para o jantar, Chisnel Laventures pensa no passado recente de seu país e em um futuro próximo para si. Ele tira fotos dos companheiros de abrigo famintos e comenta: “Quero um dia lembrar dessas dificuldades”. Com um olhar esperançoso, continua: “Quando estivermos de volta com a dignidade que tínhamos”.
Laventures é haitiano, como a maioria dos seis mil imigrantes que passaram pelo Acre. Um país destruído por um terremoto em janeiro de 2010, mas historicamente ainda mais abalado por sua economia e desigualdade social.
Apesar do seu protagonismo como a primeira colônia a se tornar independente das metrópoles europeias, em 1804, o Haiti é hoje o país mais pobre da América Latina. Antes mesmo do desastre de 2010, a situação era crítica – 80% da população vivia abaixo da linha da pobreza.
Somada à miséria extrema, a questão política esteve sempre instável entre 1820 e 1996, razão pela qual o país tem sofrido grandes impactos regionais devido a processos migratórios. Conflitos internos deslocaram mais de 300 mil pessoas para fora de suas cidades.
Entre 1991 e 1994, os Estados Unidos foram foco de uma onda migratória que movimentou 68 mil pessoas. Deixaram o Haiti e com apenas um dia de barco chegavam ao mais poderoso país do mundo. Outros 30 mil foram para a República Dominicana.
Brasil, nova realidade e oportunidades
Nesse cenário, Letesse resolveu procurar uma solução para a família. Juntou o dinheiro que tinha, reuniu parentes e conseguiu ao todo 3 mil dólares. Era a chance para embarcar em uma rota que se consolidava. Passou pela República Dominicana, Panamá, Peru e chegou até o Brasil por Brasileia em 4 de janeiro de 2012.O amor e a alegria. A esposa e duas filhas ficaram para trás há um ano para Vilsaint Letesse. Ficaram em um Haiti sem perspectivas, sem emprego, numa miséria que aumentou quando a terra tremeu em janeiro de 2010. Foram 7 graus de magnitude na escala Richter de impacto e outras 14 réplicas de magnitude 5. Quase 300 mil mortos.
Não demorou muito e o pedagogo, que sonhava um dia estudar filosofia e bioquímica, foi contratado para explodir pedras. “Eu perfuro, coloco a dinamite, e buuuum!”, ilustra. Ele está há um ano e alguns meses trabalhando na usina hidroelétrica de Santo Antônio, em Rondônia.
Mas o que fazia o caribenho empregado em Brasileia? Ele estava ali para buscar parte de sua felicidade – a esposa acabara de chegar ao Brasil. Lá estava sorridente Vilsaint Mirlene Charls. Letesse fez logo questão de levá-la ao seu hotel, que pôde pagar tranquilamente, graças ao salário mensal de um emprego estável. Ele já está com um contrato de mais um ano com a construtora.
A meta agora é arrumar a nova casa, alugada especialmente para a chegada de sua esposa, e trazer as duas filhas, de 9 e 6 anos. “Elas estão com as duas avós, mas devem estar chorando”, diz o pedagogo que detona rochas. “Mirlene chorava de saudade todos os dias.” A esposa confirma com um sorriso tímido.
O casal segue esperançoso que o novo país lhes garanta uma nova chance de viver, de crescer e de criar suas crianças. Ao menos podem em junho deste ano comemorar os 10 anos de casados. “A festa vai ser simples, mas estaremos juntos”, diz Mirlene, feliz da vida.
O abrigo
Manhã cedinho e pé no chão, lá se vão lavar a roupa da semana, escovar os dentes, despertar para mais um dia de luta. Em meio ao charco que rodeia o abrigo, o risco para transmissão de doenças. Há aqueles que trabalham para deixar o ambiente um bocadinho mais limpo.O espaço, cedido pelo governo do Estado, tem capacidade para 200 pessoas, mas nas últimas semanas está abrigando 1.300. Um mundo de línguas e histórias, “bonjour” nas primeiras horas do dia, “buenas tardes” à medida que o calor aumenta, “merci” sempre, “gracias” ainda mais… O que poderia se tornar um caos e revolta ainda maior transparece polidez e alguns sorrisos.
Trissaint Ezechiel segue sempre sorridente, mesmo limpando a bagunça de seus colegas (Foto: Arison Jardim/Secom)
Mesmo que as condições não sejam as melhores, o sorriso era recorrente. O lugar transparece esperança, como se aquela lama, colchões no chão, mil corpos dividindo o mesmo ar poeirento fossem o último estágio de sofrimento antes de uma nova vida.Direto de L’Estère, Hait, Trissaint Ezechiel varre com simpatia a sujeira de seus companheiros. Simpatia em pessoa, Ezechiel informava sobre seus passos: lá ia ele tentar o café da manhã – pão e café com leite -, fornecido pelo governo do Estado.
O abrigo também é lugar de ouvir histórias. René Guerson, 31, já conhecia o Brasil, ainda mais a zona rural. Em 2010 ele foi um dos jovens haitianos escolhidos pelo Movimento Sem-Terra para conhecer a cultura camponesa.
No Brasil, Guerson teve oportunidades de vivenciar o campo em diversos Estados, como São Paulo, Espírito Santo e Sergipe. Por meses pôde estudar no Instituto Federal do Sergipe. Agricultura agora é sua especialidade, coisa que vem de família, já que o pai e a mãe eram agricultores.
Passado um ano de experiência, voltou ao seu país, mas, insatisfeito com as oportunidades, juntou dinheiro trabalhando com o que aprendera e se mandou para o Brasil novamente, agora pela rota ilegal. O Brasil passou a conceder 1.200 vistos legais por ano para os haitianos, porém, a demanda cresce a cada dia, e a maioria prefere passar 15 dias viajando para tentar a sorte na fronteira Peru-Brasil.
Outras nacionalidades estão utilizando a rota da imigração ilegal que passa pelo Acre. Os senegaleses já são 71 (Foto: Arison Jardim/Secom)
Eheilham Arimar-Thiam, 34, é como se fosse um líder no grupo. Fala português e está sempre à frente na conversa. O motivo da vinda de todos é só um: “Nosso país é muito pobre, não tem guerra, mas também não tem emprego”. Passou sete meses estudando o português, viajou vários países trabalhando e agora pretende chegar a São Paulo para encontrar o irmão.Grupos vindos de outros países têm se formado – senegaleses, dominicanos e um rapaz de Bangladesh. Logo pela manhã, um grupo se reúne para ler o Corão, livro sagrado dos islamismo. São do Senegal, e um deles afirma: “Nós, senegaleses, não temos problemas, só queremos trabalhar, tudo é trabalho”.
As mulheres
“Sou enfermeira e quero trabalhar com o que eu sei. As empresas só contratam homens”, suplica Liceron Marie, 26, vinda de Delmas, Haiti. Uma realidade ainda mais dura para as mulheres, pois a maioria das empresas que recrutam os imigrantes é de construção civil.
Um estudo que envolve profissionais do Brasil, Equador, Peru, Bolívia e Haiti, realizado por organismos nacionais e internacionais, já está sendo feito. No caso do Brasil, a Organização Internacional para as Migrações (OIM), ligada às Nações Unidas, vai fazer parceria com o Ministério do Trabalho e Emprego.
O coordenador no Brasil é o professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas Gerais Duval Fernandes. O mercado de trabalho feminino já está entre os temas. “Elas não vão para a construção civil [maior contratante]. A possibilidade é conseguir trabalho em profissões como empregadas domésticas ou áreas de serviços”, diz o professor.
Uma das mulheres é contadora e mostra seu cartão comprovando a formação. Helas Rose-Mythe está há mais de um mês tentando ter acesso a sua documentação para permanecer legalmente no país e buscar a sorte. Ela, como os tantos e tantos seres humanos, dignos de uma boa vida, procuram o mínimo no Brasil.Outro ponto importante é a expectativa dos que chegam aqui. Muitos se submetem aos “coiotes” (espécie de atravessadores humanos), com a promessa de ganhar um salário de até R$ 10 mil. Mas a realidade encontrada é outra. A enfermeira Liceron está há um mês em Brasileia e soube de oportunidades a partir de um primo, que conseguiu chegar até São Paulo.
Texto originalmente publicado em Agência de Notícias do Acre
Ciclismo acreano – De Rio Branco a Cruzeiro do Sul pela BR-364
11/01/2015
Fotos: Arison Jardim/Agência de Notícias do Acre Percorrendo sete municípios ao longo da BR-364, mais de 100 ciclistas realizaram a aventura inédita de pedalar de Rio Branco a Cruzeiro do Sul, na corrida Race Across Acre. Foram 24 horas de pura concentração para atletas, técnicos e pessoal de apoio que saíram na sexta-feira, 27, de […]
Fotos: Arison Jardim/Agência de Notícias do Acre
Percorrendo sete municípios ao longo da BR-364, mais de 100 ciclistas realizaram a aventura inédita de pedalar de Rio Branco a Cruzeiro do Sul, na corrida Race Across Acre. Foram 24 horas de pura concentração para atletas, técnicos e pessoal de apoio que saíram na sexta-feira, 27, de frente do Palácio Rio Branco, e chegaram na manhã do sábado na Avenida Mâncio Lima, na capital do Juruá.
http://www.agencia.ac.gov.br/noticias/acre/aventura-de-pedalar-o-acre-pela-br-364
http://www.agencia.ac.gov.br/noticias/acre/ciclistas-cruzam-o-acre-pela-br-364
Um olhar sobre Rio Branco
11/01/2015
Rio Branco começa na beira do Rio Acre. Dali surgiram famílias e histórias, surgiu uma cidade com quase 350 mil habitantes (IBGE/2012). Uma urbe ramificada em bairros e conjuntos, pessoas entrelaçadas com o espaço urbano. É fácil ouvir vovós, vovôs, tios e tias contando sua infância vivida às margens do rio, dos banhos, sorvetes e […]
Rio Branco começa na beira do Rio Acre. Dali surgiram famílias e histórias, surgiu uma cidade com quase 350 mil habitantes (IBGE/2012). Uma urbe ramificada em bairros e conjuntos, pessoas entrelaçadas com o espaço urbano.
É fácil ouvir vovós, vovôs, tios e tias contando sua infância vivida às margens do rio, dos banhos, sorvetes e namoros bem ali, próximo à correnteza.
Naquela água que corria, lembra Felipe Nascimento, 58 anos, “uns meninos saiam rio abaixo, da praia da Base e seguiam, em uma câmara de ar, passando pela ponte metálica [Juscelino Kubitschek] e parando lá na Balsa do Pelado, no bairro Cadeia Velha”.
Hoje, já adultos, esses “meninos” atravessam a Passarela Joaquim Macedo, aproveitando a Gameleira e seus espaços de alimentação e de contemplação, como o Deck do Calçadão.
Com a revitalização do Novo Mercado Velho e do espaço da Gameleira, o fluxo continua. Angela Queiroz, moradora do bairro Conquista, distante cinco quilômetros do Centro, comenta que gosta de sentir a proximidade de natureza quando se senta à beira do rio para conversar com os amigos, no largo do Mercado.
O tempo passa e a cidade alcança áreas distantes do centro comercial, comunidades são contempladas com parques, academias populares e praças, aliando lazer e saúde. Raimundo Prado, 55 anos, é cardíaco e seu médico foi taxativo: “Tem que caminhar”. Prado afirma: o Parque do Tucumã é ideal para o exercício, “não tem trânsito, é seguro e tem a natureza em volta”.
Parque que une
Além de todo o lazer e saúde proporcionados, a área verde, junto de um lago encantador no início do Parque do Tucumã, está unindo mãe e filho. Polyana e Daniel Bezerra ficam cada vez mais juntos nas horas que têm disponível para passear após o trabalho da mãe.
“A gente pega coquinhos e joga pros peixes no lago”, diz Polyana, esbanjando carinho com sua criança. “Aproveito esse fim de tarde pra passar mais tempo com meu filho e ainda apresento a natureza pra ele”, afirma a mãe.
No Parque todos os dias, das 18 às 19h, há aulas de aeróbica do programa municipal Saúde em Movimento. O professor de educação física Fábio Barros explica que as aulas em grupo e ao ar livre ajudam no combate à depressão, hipertensão e outras doenças. “Muitos fogem do local fechado da academia para o ar livre e ainda fazem amizades aqui”, diz o professor.
A beleza da cidade e sua gente
De nada valeriam a arquitetura e o urbanismo de Rio Branco se não servissem aos seus moradores. Ramilo Severino, 65 anos de vida, 10 deles como vendedor de salada de frutas.
Pedalando, percorre as ruas do centro da cidade ofertando a doce salada, e afirma “aqui no Parque da Maternidade é mais seguro andar de bicicleta, passo todo dia por aqui para ir ao Mercado Elias Mansour”.
Assim como ele, centenas de outros trabalhadores ciclistas utilizam as vias do Parque para atravessar a cidade, indo dos bairros ao Centro de forma segura e rápida.
As crianças, que ainda não têm idade para conhecer a beleza da luta do trabalho, não querem saber de outra coisa senão da alegria, da felicidade, da bola nos pés.
Em um campinho de grama e uma trave improvisada, próximo ao Terminal Urbano de Rio Branco, crianças comandam o futebol. Os meninos Lucas Monteiro e Luan Rodrigues, de 11 anos, esquecem o corre-corre da cidade. Ali no campo, quem controla tempo e o espaço é a bola. Ela até voa.
Texto publicado originalmente em Agência de Notícias do Acre
Vídeos
Arte Ashaninka
28/02/2026
Fotografia


